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Você é fake ou de verdade?

O capitalismo selvagem, expresso pelo marketing do “eu mereço”, nos empurra para fora da nossa essência. Ser o que não se é de verdade dá lucro e interessa à lógica do consumo para a manutenção da superficialidade

Nunca foi tão fácil parecer o que não somos. Com alguns cliques editamos nossa foto, ajustamos o discurso e moldamos nossa imagem para atender às expectativas de quem nem ao menos conhecemos. Nos lambuzamos da possibilidade de projetar nossa figura a um ideal que jamais poderia ser correspondido na realidade. Arriscamos, ousamos, adequamos, padronizamos e vamos além, muitas vezes desconsiderando o bom senso e até a noção de ridículo.


Eu sei, caro leitor, que a vida de verdade ainda existe. Mas sutilmente ela está sendo ignorada, extirpada e trocada pela ilusão de que podemos controlar tudo.


Comemos mal, mas enquadramos somente o prato mais caro e refinado para caber no post do Instagram. Detonamos o limite do cartão, mas conseguimos o ângulo perfeito para posar com aquela peça da moda. Penamos para pagar o aluguel, a prestação, o condomínio, mas damos um jeito de ter no background das fotos somente lugares bonitos, de padrão agradável, mesmo que seja a casa do vizinho ou o lobby do hotel.


Nas redes “ditas sociais”, criticamos, julgamos e analisamos todo e qualquer acontecimento, político, econômico ou social, mas não tirarmos o traseiro do sofá para fazer algo concreto, que mude a realidade. Seguimos orgulhosos, muito interativos e ávidos pela próxima onda, o próximo “trending topic”.


Escrevemos mensagens maravilhosas no Facebook, com declarações de dar inveja a qualquer roteirista de novela, mas não temos a coragem de dizer o mesmo no “olho no olho”. Falta-nos a sinceridade, entusiasmo e a coragem, mesmo que seja para expressar o afeto, o positivo.


Nunca foi tão fácil parecer aquilo que não se é. O capitalismo selvagem, expresso pelo marketing do “eu mereço”, nos empurra cada vez mais para fora da nossa essência. Ser o que não se é de verdade dá lucro (muito lucro) e interessa à lógica do consumo para a manutenção da superficialidade. Quanto menos pensamento e crítica, melhor. Quanto mais distração e futilidades, mais dígitos na conta de quem manda.


Negamos nossas origens, nos colocamos em patamares inatingíveis e criamos uma realidade paralela para sustentar o frágil verniz da superioridade, da exclusividade e do empoderamento tão alardeado nos últimos tempos. Seduzimos, ah como seduzimos. Fazemos caras e bocas, tentamos convencer a qualquer custo e tratamos de impor nossas posições para que tudo atenda às vontades desenfreadas da criança birrenta, ou do adolescente mimado, que às vezes nos trai e ganha protagonismo nas relações.


Sem questionar, compramos a ideia de que é preciso ter sucesso a qualquer custo, ser o “melhor disso”, o “mais daquilo”, o “primeiro em...”, e por aí vaí. Nos obrigamos a estar “em dia”, “em forma”, “no topo”, “na moda”, e de acordo com o que decidem que é bom e politicamente correto. Caso contrário, passamos despercebidos, nos tornamos irrelevantes e corremos o risco de, a qualquer momento, ser cancelados, banidos para sempre.


O que está acontecendo? Estamos nos tornando meros personagens de nossa própria história? Virou regra fabricar “personas” para atender à sede do marketing digital, da venda em escala e do lucro em cima das “dores do cliente”? Já fomos humanos, nos tornamos números e agora somos algoritmos. O que virá depois? Um robô nos classifica, separa, rotula e nos induz a pensar, fazer e consumir o que se acredita ser o mais “adequado ao nosso perfil”. Estaríamos perdendo a capacidade de discernimento?


Quanto e o quê nos custa manter as aparências? Dinheiro? Tempo? Energia? Nossa paz? No passado, o ditado afirmava que tinha gente que “vendia a alma para o diabo”. Hoje, estão nos ensinado, passo a passo, a sermos os próprios diabos, porque a ordem é ser “foda”. O resto é resto, feito de fracos, perdedores e sem vontade de vencer.


Por que precisamos tanto fugir da realidade? Por quê insistimos no comportamento primitivo de querer ter as vontades satisfeitas a qualquer custo? Só interessa o protagonismo, o palco, o prêmio, o like e o aplauso? É por isso que nos sacrificamos tanto? O que realmente conta? Qual a moral da história?


Mas temos de admitir: não é fácil ser de verdade. Não é tão simples encarar as próprias fragilidades, lidar com os fantasmas e as frustrações. Mexer na ferida, então? Deixa para o futuro que nunca chega.


Admitir o erro e aceitar nossa pequenez e finitude exige esforço. Mas não queremos trabalho, responsabilidade. Queremos é o “delivery”, o “drive-thru” e o “fast food” da existência. Tudo aqui e agora, bem formatado e personalizado para satisfazer nossos desejos mais urgentes. Só vale o impulso, o culto à emoção, o deslumbramento do elogio, o reconhecimento forçado, a aprovação sem fim.


O grande desafio é ser a gente mesmo. Assumir as cicatrizes, orgulhar-se da jornada, colocar-se como se é, mesmo que isso não atenda às próprias expectativas e à mão pesada da tal "pressão da sociedade". Mas será que queremos a verdadeira mudança? Será que dá tempo? Esse dia vai, enfim, chegar?


Que nos façamos mais perguntas, pois exame de consciência nunca fez mal a ninguém.

Sigamos renovando a esperança.


Fabiano Latham é jornalista e autor dos livros "Agora Vai" e "Enfrente".

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